6 de mai. de 2008

Laranja Mecânica, 1971

Ultraviolência. Quando Laranja Mecânica se inicia, somos apresentados a essa palavra que, durante o filme inteiro será trabalhada. Muito mais pelo violento tom psicológico no qual o filme é conduzido magistralmente por Stanley Kubrick até o seu final. Tudo de modo cínico, hipócrita, denunciando todo o egoísmo em uma visionária concepção de sociedade. Algo que, assustadoramente, em pleno século 21, continua atual, senão pior do que nos é apresentado em termos de violência no mundo. Kubrick, é apontado por muitos como um símbolo da desconstrução da realidade. Pra mim é como a consciência mor de uma sociedade que caminha para a extinção de valores e da própria humanidade. (Pra quem ja assistiu "O Iluminado" e "Nascido pra Matar" sabe muito bem do que estou falando).

O anti-herói do filme é Alex DeLarge, um jovem líder de uma gangue inglesa. Delinqüentes, amantes de leite drogado e música clássica, que tem por diversão bater, estuprar, matar... Enfim, cometer qualquer brutalidade que tenha vontade, não se importando com as leis ou o senso humanitário, somente pensando na própria diversão. Ao matar uma mulher, Alex é preso e condenado a 14 anos de prisão. Na cadeia toma conhecimento de uma experiência científica revolucionária – o tratamento Ludovico - que visa combater a criminalidade e refrear os impulsos destrutivos através de um tratamento onde o paciente é submetido a horas assistindo cenas de sexo e violência com seu corpo preso, uso de drogas, garras em seus olhos para mantê-los abertos e ao som de sua música favorita – a nona sinfonia de Beethoven – . Considerado curado, Alex é libertado e passa para uma nova fase de sua vida.

É uma extraordinária sátira à hipocrisia da sociedade. E, mais uma vez, Kubrick brilha de maneira fascinante comparando os atos de Alex antes de sua internação com os da sociedade em resposta ao seu passado na segunda metade do filme. A sociedade que considerou Alex violento e perigoso se revela tão violenta quanto o próprio, o tratamento que tinha como objetivo reajustá-lo para a inserção social se mostra um instrumento de desumanização mais perigoso que o Alex delinqüente. Torna-se ainda garoto-propaganda de um governo totalitário que teima tê-lo curado para as pessoas que o vêem. O trabalho de ambientação da Inglaterra futurista é excelente, as roupas usadas pelos “drugues” e as imagens da leitaria – os jovens passam suas noites tomando drogas com leite - são fortes e polêmicas. Pontos também para o vocabulário de Burgess, recriado por Kubrick, que mistura russo, inglês e gírias.

McDowell esta simplesmente IMPECAVEL no papel. O seu olhar e a sua frieza, intimida positivamente, acho que nunca se encaixou tão bem em um personagem seu antes (e nem depois). A sua importância dentro do contexto é tanta que li, certa vez, que Kubrick chegou a cogitar a possibilidade simplesmente não rodar Laranja Mecânica caso Malcolm não aceitasse o papel.

Kubrick tem o total domínio sobre as técnicas de filmagem. Misturando diversas dessas técnicas, ele cria o ambiente que quer da maneira que quer. Mesmo que possa parecer estranho (seus cenários tem cores sempre extravagantes, poucos objetos de cena, chão brilhando, luzes estourando nas paredes e tetos), tudo tem uma perfeita sintonia com o mundo em questão. Aliás, essa característica não se diz somente à Laranja Mecânica, e sim a todos os filmes de Kubrick (até mesmo Spartacus!). Kubrick também brinca com temas clássicos, como nunca vistos antes. Além dos clássicos já supra citados, temos canções inocentes como ‘Singing in the Rain’ interpretadas de um modo nunca visto antes.

Particularmente, não curto tanto essa violência em filmes. Só que aqui ela é totalmente justificada e aceitável, o roteiro sempre tem uma explicação cabivel, nada acaba sendo gratuito. O engraçado é que o filme custou apenas 2 milhões de dólares e, sem sombra de dúvidas, é um grande clássico. O que prova que a qualidade não está nos orçamentos milionários de Hollywood, e sim na competência de seus realizadores. É tão óbvia essa afirmação que me pergunto como filmes horrorosos que custaram dez vezes mais conseguiram ser aprovados por seus produtores. É ao mesmo tempo divertido e cruel. Fascinante e perturbador. Uma reflexão e medo. Ousado e intrigante. É Kubrick em sua melhor forma. E modéstia a parte, Almodovar, Tarantino e Lynch ficam no chinelo perto dele.


A melhor cena do filme, Alex torturado ao ser submetido ao Tratamento Ludovico.

8 comentários:

Tiago Faller disse...

HOHO!

Morrendo de vontade/curiosidade de achar e assistir Laranja Mecânica na íntegra!

É uma pena que terei de esperar até chegar em casa para assistir o trechinho publicado... =s

Beijos, Jéss.. =**
Ótima iniciativa!

Anônimo disse...

excelente jess, comecou bem :) se bem que eu ja conheco o nivel de seus textos, ne... bjao!! :*

Anônimo disse...

Me orgulho de nunca ter assistido. Entretanto, quando quero me passar por entendida do assunto, o comentário sobre Laranja Mecânica é: "foi gravado em Dublin, sabe?".

Paula Groff disse...

Como assim, te descubro pelo meu sitemeter? Jess, menine! QUE SAUDADE PORONDE ANDOU BEIJOS?

Girabela disse...

VOLTA, JÉSSICA! Dá uma palhinha aqui de novo.

Adorei teu texto, quero mais.
Olha, já assistisse a Barry Lindon? Achei beeem diferente de Laranja, mas tão bom quanto.

Abraços,
Gabriela.

Marlon disse...

Criatividade 1000 hein amiga?

Uma pergunta: você consegue pensar sozinha, ou precisa dar Copiar/Colar no cérebro dos outros também?

http://www.cineplayers.com/critica.php?id=272

Rodrigo Cunha disse...

Muito legal, Jéssica, roubando o trabalho dos outros!

http://cineplayers.com/critica.php?id=272

Lucas Moraes disse...

Excelente texto do Rodrigo Cunha, e muita cara de pau dessa menina em copia-lo.